O Barca Velha ostenta o título de melhor vinho português. E para quem acredita que a nomeação existe, ele ocupa, sem dúvida, o lugar merecido. Venho aqui hoje contar-vos algumas curiosidades sobre a marca, que em 67 anos de existência apresentou apenas 18 colheitas – a última em 2008.
O vinho existe graças a duas figuras centrais. A primeira, a D. Antónia Adelaide Ferreira, famosa Ferreirinha, cujo sonho e último projecto de vida foi a plantação de vinhas modernas no Douro Superior, na Quinta do Vale de Meão, o berço da Barca Velha, em 1877. O olho para o negócio fê-la comprar em hasta pública 300 hectares de terra virgem à Câmara Municipal de Foz Côa, contra os presságios negativos de quem a rodeava. Se o Douro Superior ainda hoje parece longe, imaginem no século XIX, em que o cavalo era o principal meio de transporte. A outra personalidade a quem se deve agradecer a existência de tão bom vinho é Fernando Nicolau de Almeida, conhecido como pai do Barca Velha, que pretendia criar um vinho de mesa que pusesse Portugal no mapa. Acabou por revolucionar a produção de vinho ao trazer de França as mais modernas tecnologias para uma região que, à data, praticamente apenas fazia vinho do Porto. Ferramentas hoje bastante usadas pelos enólogos, como arrefecer o vinho ou colocá-lo em barricas de carvalho, eram impensáveis nos anos 50 do século passado e implicavam loucuras como levar camiões de pedras de gelo pelo Douro fora, em viagens de horas a fio.
“O Barca Velha nasceu depois de uma viagem que fiz a França, onde estudei o processo de vinificação daquele país. Verifiquei, então, que devido ao facto de a temperatura ser mais baixa que em Portugal, os vinhos franceses adquiriam durante a fermentação uma maior porcentagem de qualidades, como a cor, que se encontra junta a película das uvas. Resolvi, nessa altura, refrigerar os mostos, enviando para o Douro camiões com gelo . Assim demorava, de forma artesanal, o tempo de fermentação, o que dava uma maior tempo de maceração, para extrair a cor da pele.”
Fernando Nicolau de Almeida, in Jornal de Notícias, Março de 1985
Ao contrário de muitos vinhos, o Barca Velha apenas é lançado nas melhores colheitas. Vem também contradizer algumas ideias pré-concebidas de que os melhores vinhos são de anos ímpares ou pares, porque as colheitas reais quebram mitos. Ora veja: 1952, 1953, 1954, 1957, 1964, 1965, 1966, 1978, 1981, 1982, 1983, 1985, 1991, 1995, 1999, 2000, 2004 e 2008. Mais: o Barca Velha só é lançado quando já está pronto para ser bebido – apesar de durar muitos mais anos. E este envelhecimento em garrafa é feito em caves frescas, logo o vinho evolui nas melhores condições de humidade e temperatura.
Apesar de serem apenas escolhidas as melhores colheitas, todos os anos é feita uma espécie de aspiração a Barca Velha. Em caso de insucesso, o vinho é vendido sob a marca Reserva Especial, por metade do preço (a rondar os 200€), o que se trata de uma pechincha para alguns fanáticos.
Em breve, venho aqui contar outras histórias de vinhos.
